FILHOS DE MARTE

Capítulo 1 — A Cidade Escarlate

“Antes da Terra existir como lar, Marte já carregava sua culpa.”

Marte não era sempre aquele planeta silencioso e vazio que os humanos do futuro viriam a conhecer. Houve um tempo, milhões de anos atrás, em que sua atmosfera pulsava com vida vibrante, suas terras vermelhas respiravam sob rios e oceanos. O ar era denso o suficiente para carregar o perfume metálico das chuvas de manhã, um aroma que lembrava ozônio e minerais molhados, e o suave sussurro do vento entre as colinas distantes, um som quase melódico que embalava o sono das crianças marcianas. E no horizonte, elevando-se acima das nuvens como um deus adormecido, o Monte Olimpo dominava a paisagem, sua vasta caldeira um lembrete constante da grandiosidade primordial do planeta. Aos seus pés, estendia-se a colossal cidade de Elyzara, um testemunho da ambição e da glória marciana.

Naquele tempo, a civilização marciana, os nascidos de Marte, caminhavam com uma esperança obstinada — embora já marcada pelo peso do próprio destino. A vida em Elyzara era uma sinfonia de rotinas meticulosas e rituais ancestrais. As manhãs começavam com a "Meditação do Alvorecer", onde os marcianos se reuniam em praças suspensas, absorvendo a luz filtrada do domo, praticando a respiração profunda para sintonizar-se com os fluxos energéticos do planeta. A comida, sintética e nutritiva, era uma experiência sensorial única: as "frutas" cultivadas em biorreatores tinham um sabor agridoce, quase elétrico, que estalava na língua, enquanto os "grãos" processados possuíam uma textura crocante e um sabor terroso que remetia às profundezas de Marte. As refeições eram momentos de silêncio contemplativo, onde a gratidão pela sobrevivência era um mantra não-dito.

Elyzara, coração daquela civilização que desvanecia, era um espetáculo. As torres espiraladas, erguidas com ligas translúcidas e metais vivos, elevavam-se como espinhos de cristal em direção ao céu cor de sangue, um céu que já não possuía a intensidade de antes. À noite, essas estruturas monumentais emitiam um brilho suave, azul-prateado, que serpenteava pelas fachadas como se a cidade respirasse um último suspiro – um fenômeno que os mais poéticos ainda chamavam de “luz dos ancestrais”, embora menos brilhante a cada ciclo.

As ruas de Elyzara não tocavam o chão. Flutuavam em intrincadas teias de passarelas e plataformas suspensas, algumas delas se estendendo para além dos limites urbanos, em direção às encostas do Monte Olimpo, onde imensas instalações coletoras de energia telúrica aproveitavam o calor residual do gigante vulcânico. Essas estruturas, sustentadas por campos gravitacionais antigos, há muito não compreendidos por inteiro, mostravam a simbiose entre a tecnologia e a natureza que Elyzara tentava manter, ainda que de forma insustentável. A filosofia marciana pregava a integração harmoniosa com o ambiente, mas a busca incessante por mais energia e conforto levou à criação de tecnologias que, embora inicialmente adaptativas, tornaram-se inflexíveis e incapazes de evoluir com as mudanças drásticas do planeta. Os sistemas de filtragem atmosférica, outrora eficientes, agora lutavam para processar a poeira fina, entupindo-se e exigindo manutenção constante, um sinal claro da obsolescência tecnológica diante de um ambiente em rápida deterioração. As passarelas vibravam suavemente sob os passos dos habitantes, uma pulsação rítmica que contrastava com o silêncio geral da cidade. Por vezes, era possível ouvir os sons de harpas suaves, etéreas, ecoando entre os prédios – parte de um sistema acústico complexo, pensado para manter a mente calma diante da crescente, mas não reconhecida, tensão. A música marciana, diferente da terrestre, não buscava a melodia complexa, mas sim a ressonância harmônica, utilizando frequências que acalmavam a mente e estimulavam a conexão telepática sutil entre os indivíduos, uma arte que agora parecia um lamento silencioso.

Mas o passado não desaparece. Ele aguarda.

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A verdade está apenas começando a emergir

Você acabou de ler o início de uma história que atravessa planetas, gerações e segredos enterrados.

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